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16 outubro 2026

Flávio atirou no Congresso e acertou no próprio pé

 

Por Zé Américo Silva*

Na política, há um erro que costuma custar caro: declarar guerra antes de reunir condições para vencê-la. É essa a contradição que marca a ofensiva do grupo de Flávio Bolsonaro contra os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre.

Animada pelo crescimento de suas bancadas nas eleições de outubro, a direita bolsonarista antecipou a disputa pelo comando das duas Casas, anunciando seus próprios candidatos e deixando claro que não pretende apoiar a permanência dos atuais presidentes.

Esqueceu, entretanto, uma regra elementar da política: bancada numerosa não significa maioria automática. No Congresso, ninguém governa sozinho. É preciso negociar, construir alianças e respeitar a força de quem controla a pauta legislativa.

Alcolumbre e Motta conhecem esse jogo. Ambos continuarão no Parlamento na próxima legislatura e têm interesses políticos a preservar. Ao se verem confrontados, passaram a ter razões adicionais para buscar entendimentos com o governo Lula.

O resultado dessa movimentação pode ser observado na agenda legislativa. A aprovação no Senado da proposta que acaba com a escala 6×1, reduzindo a jornada semanal para 40 horas, com duas folgas e sem redução salarial, representa uma conquista política importante para o governo.

A pauta da segurança pública também ganhou espaço, permitindo ao Planalto associar sua atuação a temas de grande repercussão nacional.

Isso não significa que Alcolumbre e Motta tenham se convertido ao lulismo. Muito menos que exista uma aliança eleitoral formal. O que se observa é uma convergência circunstancial de interesses, algo absolutamente comum na política brasileira.

Lula conhece como poucos essa dinâmica. Sabe que, muitas vezes, o apoio mais valioso não vem de quem compartilha suas convicções, mas de quem encontra razões próprias para caminhar na mesma direção.

O episódio também expõe uma contradição do bolsonarismo: conquistar mais cadeiras não equivale a conquistar o comando do Parlamento. Entre uma coisa e outra existe um longo caminho de articulação, negociação e construção de maiorias.

Ao antecipar uma disputa que só deveria ganhar forma depois da eleição presidencial, o grupo de Flávio Bolsonaro abriu uma frente de conflito desnecessária com dois personagens que continuarão exercendo influência no Congresso.

E Lula, que não provocou esse confronto, pode acabar colhendo seus dividendos políticos justamente quando mais precisa de uma agenda positiva.

A ironia é evidente: na tentativa de enfraquecer seus futuros adversários no Legislativo, Flávio Bolsonaro criou condições para que decisões desses mesmos adversários favoreçam seu concorrente na disputa presidencial.

Na política, como na guerra, nem sempre o tiro atinge o alvo escolhido. Às vezes, acerta o próprio pé.

Apuração de referência: a votação da PEC do fim da escala 6×1 foi confirmada pela imprensa em 14 de outubro; a articulação de Alcolumbre para permanecer na presidência do Senado e a reação da oposição também foram documentadas. A relação de causa e efeito entre esses movimentos permanece uma interpretação política.

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