
Por Igor Maciel – JC
O vídeo gravado por Michelle Bolsonaro (PL) reclamando de ter sido “humilhada” por Flávio Bolsonaro (PL) abriu uma crise que dificilmente será encerrada apenas com uma nota oficial ou uma declaração de pacificação. A ex-primeira-dama voltou a falar em “união da família” no dia seguinte à divulgação do vídeo em que reclamou do enteado mais velho, mas não o citou diretamente. A omissão acabou confirmando que o desgaste permanece.
Em qualquer campanha presidencial, divergências internas são inevitáveis. Poucas, porém, atingem um ativo eleitoral tão importante quanto Michelle representa para o bolsonarismo. Principalmente entre as mulheres. E Flávio precisa muito delas.
Mulheres
As pesquisas mostram que Flávio Bolsonaro enfrenta mais dificuldades entre as mulheres do que entre os homens. Na última pesquisa Quaest, Lula (PT) chega a ter 45% desse grupo e o filho 01 de Bolsonaro chega a 36%. Esse quadro ganha peso porque elas representam mais de 52% do eleitorado brasileiro. Nenhum candidato competitivo consegue ignorar um segmento dessa dimensão.
Foi justamente entre essas eleitoras que Michelle construiu sua relevância política, principalmente à direita. Sua presença ampliou o diálogo do bolsonarismo com mulheres conservadoras, especialmente entre evangélicas, e ajudou a reduzir resistências que a própria família Bolsonaro sempre encontrou nesse público, desde que Jair Bolsonaro surgiu candidato em 2018.
Quando Michelle afirma publicamente ter sido “humilhada” pelo candidato, cria uma contradição difícil de administrar. A principal defensora da candidatura passa a relatar um tratamento incompatível com o discurso que o próprio grupo pretende apresentar ao eleitorado feminino.
Credibilidade
Michelle não acrescenta tempo de televisão ou capacidade de mobilização. Ela empresta credibilidade a uma candidatura que precisa crescer justamente entre as mulheres.
Essa influência não desaparece por causa de um desentendimento familiar, mas perde força quando a própria coloca em dúvida a relação construída com Flávio. A partir desse momento, qualquer gesto de aproximação poderá ser interpretado como resultado de uma necessidade eleitoral, e não de uma relação política consolidada. O estrago já foi feito.
Os adversários dificilmente deixarão essa oportunidade passar. O episódio tende a extrapolar o âmbito familiar e ganhar espaço no debate eleitoral. O vídeo está aí, é real, e será utilizado pelos adversários quando for preciso pedir voto das mulheres. O argumento de que “Flávio humilha e menospreza as mulheres” estará ancorado num vídeo de uma mulher de sua família. O estrago é grande.
Disputa
Lula não precisa conquistar eleitoras bolsonaristas. Basta manter a vantagem entre as mulheres e impedir que Flávio recupere espaço nesse grupo.
Uma candidatura que encontra obstáculos para crescer onde mais precisa acaba sendo obrigada a buscar compensações em grupos nos quais já atingiu um teto eleitoral. E Flávio já está no limite por causa de outros problemas bem conhecidos.
A família Bolsonaro ainda dispõe de tempo para reconstruir essa relação diante do público. O episódio, porém, atingiu justamente a liderança responsável por ampliar o alcance do bolsonarismo entre as mulheres. Resta saber se, até o prazo final das convenções em agosto, haverá espaço para recompor essa imagem ou se novos desdobramentos ainda podem aprofundar a crise.
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