
Por Leonardo Sakamoto
Do UOL
Quando interesses se unem não para governar, mas para conter investigações e evitar consequências, o problema deixa de ser um nome barrado e passa a ser a República em risco. O forno que derrubou Jorge Messias continua aceso e não falta lenha.
Sim, quem assou a candidatura do escolhido por Lula ao STF pode deixar a democracia queimar por interesses pessoais, como venho dizendo aqui desde a última quinta. A questão não é ele ter sido reprovado por currículo, mas o currículo ter sido o menos importante de tudo.
Os protagonistas seguem por aí com a fornalha acesa pelo Banco Master. Davi Alcolumbre (com apadrinhado que entregou R$ 400 milhões da aposentadoria dos servidores públicos do Amapá para o Master queimar), Ciro Nogueira e o centrão bolsonarista (e suas relações promíscuas com os donos do banco e, por que não, os de bets), Alexandre de Moraes (e a falta de explicação plausível para o contrato de R$ 129 milhões de sua esposa com o Master), Flávio Bolsonaro (que quer instabilidade até as eleições, mas sem que lembremos que o clã do banco foi o maior doador individual de seu pai) e Daniel Vorcaro e família (o ponto de convergência onde grupos e pessoas ideologicamente distintas passam a cooperar para que o verdadeiro inquérito do fim do mundo desapareça).
Não há ideologia aqui, não há projeto de país, apenas proteção mútua. Tenho repetido feito maritaca com cãibra que as investigações do banco poderiam explodir o sistema. Cairiam pessoas ligadas ao governo Lula, mas o grande estrago seria no fisiologismo do Centrão e na direita bolsonarista.
Com isso, enterraram a CPI do Master e derrubaram vetos contra a redução da punição aos golpistas. O problema é que, quando os pizzaiolos tomam gosto pela coisa, o cardápio não para com Messias servido.
Discute-se agora como fazer outros sabores. Por exemplo, o que poda a prerrogativa presidencial de indicação de ministros ao STF, o que permite proteção a todos os envolvidos no escândalo do Master, o que tira golpistas da cadeia, o que ameaça Flávio Dino de impeachment por estar à frente do processo de moralização das emendas parlamentares, o que interfere na corrida eleitoral porque Lula resolveu não ser sócio da pizzaria.
Ou seja, a próxima coisa a sair desse forno pode ser a própria democracia, tostada por fora, vazia por dentro, servida como se ainda estivesse inteira.
O fim do jantar ainda está longe e tudo pode acontecer. Mas se a fumaça começar a sair pela chaminé, não adianta fingir surpresa. Democracias não costumam morrer de forma dramática, elas vão sendo cozidas em fogo baixo, enquanto acordos inconfessáveis garantem que ninguém mexa no recheio do outro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário