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06 novembro 2026

Polícia Civil apresenta detalhes da investigação no caso do deputado eleito Emerson Freitas

 

Folha de Pernambuco

A Polícia Civil de Pernambuco realizou uma coletiva de imprensa, hoje, para apresentar detalhes da investigação que envolve o deputado estadual eleito Emerson Freitas (MDB), réu pelos crimes de extorsão majorada, exploração de prestígio e lavagem de capitais. O processo tramita na 15ª Vara Criminal de Pernambuco. Somadas, as penas máximas previstas para os três crimes podem ultrapassar 20 anos de reclusão.

Segundo o delegado do Grupo de Operações Especiais (GOE), Jorge Pinto, responsável pela investigação, o parlamentar teria utilizado o alcance de suas redes sociais, onde reúne mais de um milhão de seguidores, para exigir pagamentos de pessoas envolvidas com atividades criminosas em troca de não publicar ou retirar conteúdos que as relacionassem a práticas ilícitas.

De acordo com a investigação, as cobranças incluíam pagamentos em espécie, a exemplo de R$ 20 mil, além de valores mensais para impedir novas publicações. Também foram identificadas transferências via Pix realizadas para contas de terceiros.

O inquérito, inicialmente, foi instaurado para investigar possíveis práticas criminosas de organizações criminosas, incluindo denúncias sobre supostos toques de recolher. Durante as diligências, a Polícia Civil identificou relatos de pessoas que afirmaram ter sido vítimas de extorsão atribuída ao deputado eleito.

Jorge Pinto explicou que Emerson entrou no radar da investigação por ser um dos principais responsáveis por impulsionar, nas redes sociais, as informações sobre os supostos toques de recolher. No decorrer das apurações, porém, os investigadores identificaram denúncias de práticas que extrapolavam o objeto inicial do inquérito.

“(O inquérito) foi aberto para apurar condutas criminosas perpetradas supostamente por organizações criminosas e, de maneira fortuita, a gente descobre esses crimes que estariam sendo praticados pelo indiciado. E por que a vinculação desse indiciado com o objeto inicial do inquérito? Porque ele era o principal impulsionador dessas matérias que estavam sendo veiculadas na época da abertura do inquérito policial, que seriam supostamente esses toques de recolher emanados por organização criminosa”, explicou o delegado.

Um dos episódios identificados pela Polícia Civil ocorreu em um mercado no Recife, onde Emerson teria recebido R$ 20 mil em espécie para deixar de publicar conteúdos contra uma pessoa envolvida com a criminalidade violenta.

“Um encontro se deu em um mercado aqui na capital, onde o indiciado recebeu em mãos R$ 20 mil e, como contraprestação, ele não mais realizaria qualquer publicação em desfavor de uma pessoa envolvida com a criminalidade violenta”, relatou Jorge Pinto.

Provas e falsa influência

Além dos depoimentos reunidos no inquérito, a Polícia Civil afirma ter encontrado provas técnicas a partir da análise de dados extraídos de aparelhos celulares. Segundo Jorge Pinto, o material contém conversas nas quais o próprio investigado exigiria pagamentos em dinheiro para não realizar publicações nas redes sociais.

“Além da farta prova testemunhal já documentada no inquérito, a gente tem uma prova técnica muito robusta, obtida a partir da análise de dados de celular, onde o próprio indiciado mantém conversas diretas e muito claras exigindo pagamento em dinheiro de pessoas envolvidas com a criminalidade em troca de seu silêncio em suas redes sociais”, afirmou.

A investigação também identificou que Emerson alegava ter influência sobre integrantes do Poder Judiciário e do Ministério Público. Segundo o delegado, o parlamentar prometia interferir no andamento de processos e investigações em curso, oferecendo às vítimas a possibilidade de paralisação dos procedimentos em troca de novos pagamentos.

Jorge Pinto afirmou, no entanto, que essa influência não existia e seria utilizada como argumento para convencer as vítimas a realizar os pagamentos. “Ele utilizava de uma falsa influência perante membros da magistratura e do Ministério Público como forma de obter novos benefícios. Condicionava a suposta paralisação de processos ou de investigações em andamento perante o Ministério Público ao novo recebimento de valores. Só que essa influência nunca existiu, era mais um engodo que ele utilizava para mentir para essas vítimas e obter toda essa vantagem ao longo de dois anos”, declarou.

A investigação também apontou uma relação de proximidade entre o deputado eleito e pessoas apontadas como lideranças de facções criminosas, especialmente na Zona Norte do Recife. Segundo Jorge Pinto, os valores cobrados variavam conforme o grau de proximidade com o investigado. Áudios reunidos pela polícia indicariam que pessoas sem relação próxima com ele eram submetidas a cobranças maiores.

O delegado também mencionou semelhanças entre o modo de atuação identificado no caso e uma investigação conduzida em 2023. Ele, porém, não entrou em detalhes sobre o procedimento anterior, que ainda tramita sob segredo de Justiça. Para Jorge Pinto, houve uma escalada na gravidade das condutas, especialmente pela tentativa de atribuir influência indevida sobre instituições públicas.

Servidora

Uma servidora do Departamento Estadual de Trânsito de Pernambuco (Detran-PE), amiga do deputado eleito, também foi indiciada no inquérito. Segundo a Polícia Civil, ela teria disponibilizado a própria conta bancária para receber valores destinados a Emerson, funcionando como intermediária nas movimentações financeiras.

De acordo com Jorge Pinto, a mulher tinha conhecimento ou, ao menos, condições de saber que os recursos poderiam ter origem criminosa. Mesmo após ser alertada sobre a possibilidade de o investigado receber dinheiro de pessoas envolvidas com o tráfico de drogas, ela teria continuado recebendo os valores.

A servidora responde por lavagem de capitais, permanece em liberdade e também se tornou ré após o recebimento da denúncia pela Justiça.

Perseguição

O delegado-geral da Polícia Civil de Pernambuco, Felipe Monteiro, também participou da coletiva e afirmou que a instituição decidiu apresentar sua versão diante da repercussão do caso e das manifestações do investigado, de sua defesa e de outras pessoas nas redes sociais.

“Essa coletiva é importante para a gente restabelecer a verdade dos fatos, mostrar exatamente o que foi a operação e o que, de fato, foi feito pelo trabalho do GOE nesse primeiro momento, e desmistificar algumas coisas que estão sendo passadas nas redes sociais, na mídia, por outras pessoas e que não dizem respeito exatamente ao objeto dessa investigação”, afirmou.

Felipe Monteiro também afastou a possibilidade de motivação política ou perseguição contra o deputado eleito. Segundo ele, a investigação trata de crimes que teriam sido praticados de maneira reiterada, e não de uma apuração relacionada às denúncias de supostos toques de recolher.

“O que está mostrado aqui é a prática de uma série reiterada de crimes. A gente fez questão de trazer os crimes em que ele está envolvido, como extorsão, e mostrar esses eventos narrativos equivocados para que não tenha nenhuma dúvida do que é que a gente está combatendo e do que é que a Polícia Civil foi atrás”, declarou.

Segundo o delegado-geral, os fatos que chegaram ao conhecimento da polícia mais recentemente apontam para a continuidade das condutas e o surgimento de novas vítimas.

“Os fatos que apareceram no passado foram tratados devidamente no passado e os responsáveis foram responsabilizados. Mas o que aconteceu depois, e Jorge deixou muito claro aqui, mostrando, é que os fatos do passado nunca ficaram no passado. Eles continuaram sendo praticados de forma reiterada, com novas vítimas”, afirmou.

Questionado sobre possíveis consequências da prisão e da investigação para a diplomação de Emerson Freitas, Felipe Monteiro explicou que a atuação da Polícia Civil se limita à apuração criminal, mas que os fatos podem ter desdobramentos em outras esferas.

Judiciário

Durante a coletiva, Jorge Pinto afirmou que a investigação não identificou participação de magistrados ou integrantes do Ministério Público em qualquer esquema de corrupção. “De forma absolutamente segura, nós tivemos todo o cuidado em checar essas informações. Fizemos o levantamento de todos os processos criminais em curso e já arquivados e não constatamos qualquer tipo de irregularidade”, afirmou.

O delegado acrescentou que alguns dos processos citados tiveram andamento regular e resultaram em condenações. Segundo ele, a análise não apontou interferência indevida por parte de integrantes do Judiciário.

Jorge Pinto também explicou os procedimentos adotados para cumprir o mandado de prisão preventiva, expedido em 29 de outubro, contra Emerson. Ainda de acordo com o delegado, a medida foi solicitada à Justiça diante do risco de reiteração criminosa, considerando a existência de uma investigação anterior, de 2023, e a continuidade das práticas nos anos de 2024 e 2025.

Após tentativas de localizar o investigado nos endereços que costumava informar como domicílio, a Polícia Civil solicitou um mandado de busca domiciliar. O delegado rebateu questionamentos sobre o cumprimento da ordem em um imóvel que seria de um terceiro.

“Essa casa até poderia ser de terceiro, mas o próprio réu teria fornecido voluntariamente uma declaração de próprio punho onde apontava esse endereço como sendo seu local de domicílio. Então, a polícia não entrou na casa de ninguém sem levantamento de informações, havendo indicativos concretos de que lá ele pudesse se encontrar”, afirmou.

O delegado também negou que o investigado tenha sido impedido de acessar os elementos da investigação ou que tenha sofrido cerceamento de defesa. Segundo ele, três advogados foram constituídos ao longo do procedimento e os dois primeiros tiveram acesso integral ao material documentado no inquérito.

Jorge Pinto afirmou que o terceiro advogado também recebeu acesso aos autos antes do interrogatório de Emerson. Além disso, os dados brutos extraídos dos aparelhos celulares foram disponibilizados à defesa e continuam acessíveis para consulta.

Sobre o conhecimento do mandado de prisão, o delegado afirmou que a ordem estava inserida no Banco Nacional de Mandados de Prisão, o que tornou pública a informação e permitiu sua rápida circulação em grupos de mensagens e redes sociais.

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